A doença de Alzheimer é um transtorno neurodegenerativo cerebral, que se caracteriza pelo declínio progressivo das capacidades cognitivas, especialmente a memória. A causa envolve uma interação complexa entre os fatores não modificáveis (a suscetibilidade genética, o envelhecimento natural) e modificáveis (os fatores ambientais e o estilo de vida).

A doença de Alzheimer é considerada a principal causa de demência e afeta milhões de pessoas todos os anos.

Ainda não há um medicamento efetivo capaz de reverter a perda neuronal ocorrida na doença de Alzheimer. Diversos estudos continuam a tentar descobrir uma terapia eficaz no combate ao mecanismo da doença. Porém, até o momento, o tratamento é focado em medidas preventivas e na redução da progressão dos sintomas.

O neurologista Dr. Júlio César Guia Pereira Filho, membro da Sociedade Brasileira de Neurologia, Coordenador do Hospital Municipal do Campo Limpo e parte do corpo clínico do Hospital Albert Einstein, ambos em São Paulo, detalha as terapêuticas mais atuais para o controlo dos sintomas. Em um extenso guia, o Dr. Júlio César aborda os tratamentos medicamentosos para a doença de Alzheimer. Em breve, ele falará também sobre os tratamentos medicamentosos para os sintomas associados.

Os tratamentos medicamentosos para a doença de Alzheimer

A doença de Alzheimer provoca uma disfunção em alguns circuitos cerebrais, principalmente naqueles dependentes de um neurotransmissor denominado acetilcolina. Dessa forma, os medicamentos que aumentam a recetividade e a utilização da acetilcolina pelos neurónios são úteis no controlo dos sintomas da doença.

Nesse contexto, encontram-se os inibidores de acetilcolinesterase (donepezil, rivastigmina, galantamina) que atuam sobre a enzima que degrada a acetilcolina e, portanto, aumentam e prolongam a concentração de acetilcolina disponível para ser utilizada pelos neurónios.

Os benefícios previstos com o uso desses medicamentos são:

  1. Redução da progressão da doença
  2. Melhora na capacidade de memorização e atenção
  3. Controlo parcial de sintomas comportamentais

Outro mecanismo envolvido na doença é a disfunção das células do sistema nervoso central e das vias dependentes do neurotransmissor glutamina. Essa alteração funcional ocasiona uma excitação excessiva dos neurónios, que implica a morte precoce desses neurónios.

Nessa condição, as substâncias que modulam essa atividade glutamatérgica são úteis em nosso arsenal terapêutico. É aí que estão os antagonistas de recetor NMDA (memantina), que ao controlar o estímulo glutamatérgico, reduzem os efeitos deletérios dos níveis elevados de glutamato.

Os benefícios previstos com o uso desses medicamentos são:

  1. Manutenção de funcionalidade /independência em pacientes com quadros clínicos avançados
  2. Adjuvante no controlo da progressão da doença

A boa notícia: Diversos medicamentos e tratamentos terapêuticos estão a ser testados e nós teremos grandes avanços, em breve.

Para compreender a evolução da Doença de Alzheimer é preciso compreender as fases:

  • Fase Leve

O paciente ainda preserva a independência. Porém, ele já apresenta dificuldade em nomear os objetos e as pessoas (predominantemente as que conhece há pouco tempo), não se lembra de assuntos que acabou de ler ou ouvir, perde ou guarda os objetos em locais inadequados e não consegue organizar as tarefas com a mesma competência.

Tratamento indicado:

  1. O estilo de vida adotado pela pessoa no estágio inicial do Alzheimer pode auxiliar na redução da progressão dos sintomas. Ter uma vida saudável, dormir bem, estar livre do tabagismo, consumir álcool moderadamente e não usar medicamentos que possam prejudicar o funcionamento cerebral, também praticar atividade física regular, apresentar baixos índices de açúcar e gordura no sangue, assim como o controlo da pressão arterial são recursos importantes. Cuidar da saúde mental e manter o cérebro ativo também ajudam na prevenção da degeneração cerebral.
  2. Avaliar as outras condições médicas, muitas vezes reversíveis, que podem comprometer a saúde do cérebro, como as infeções, os défices vitamínicos, as disfunções de outros órgãos e as lesões cerebrais.
  • Fase Moderada

Os sintomas agravam-se e a perda de autonomia intensifica-se, com um prejuízo funcional significativo. O doente perde-se em vias públicas, não se recorda do endereço de casa, e apresenta novas características comportamentais como a depressão, as alterações de humor, a frustação, a raiva e a confusão ao tentar realizar as tarefas. Nessa fase, pode haver início de descontrolo de sono, das funções intestinais e de urina. A necessidade de cuidado intensifica-se.

Tratamento recomendado:

  1. Observar as recomendações sugeridas na fase leve.
  2. Introdução de antagonistas de acetilcolinesterase (galantamina, rivastigmina, donepezil).
  3. Avaliar a necessidade de iniciar o acompanhamento multidisciplinar com terapia ocupacional, fisioterapia e psicologia.
  4. Observar a presença de sintomas associados, tão comuns na doença de Alzheimer, como a depressão, a agitação/agressividade, a dificuldade no sono e as disfunções de outros órgãos.
  • Fase Avançada

O indivíduo perde a capacidade de interação com o ambiente e, inclusive, a autonomia para movimentar-se. A dependência é, praticamente, total.

Tratamento indicado:

1. Considerar as medidas sugeridas nas fases anteriores.
2. Associar os antagonistas de recetor (NMDA)
3. Dar maior ênfase no controlo dos sintomas comportamentais associados.
4. À medida que a doença se agrava, é importante intensificar o cuidado e a prevenção de doenças secundárias.

Nome
genérico
Indicação Efeitos colaterais
Donepezil Todos os
estágios
Náuseas, vómitos, perda de apetite, cãibras,
salivação excessiva, aumento da frequência
urinária, fadiga, tontura
Galantamina Leve avançado/moderado Náuseas, vómitos, perda de apetite, cãibras,
salivação excessiva, aumento da frequência
urinária, fadiga, tontura
Rivastigmina Leve avançado/moderado Náuseas, vómitos, perda de apetite, cãibras, salivação excessiva, aumento da frequência urinária, fadiga, tontura
Memantina Moderado avançado/ severo Dor de cabeça, tontura, constipação, dores abdominais
Memantina + Donepezil Moderado /severo Náuseas, vómitos, perda de apetite, tontura, constipação e aumento de frequência urinária

É de extrema importância ressaltar que as terapêuticas citadas neste texto não substituem a orientação do médico de confiança de cada paciente. O canal Thereus Health, de forma alguma, sugere que os tratamentos sejam seguidos por todas as pessoas com a doença de Alzheimer e as outras demências. Ao publicar esse conteúdo, nós mantemos o nosso propósito de esclarecer as dúvidas, aumentar a literacia e ampliar o conhecimento sobre as patologias que atinge milhares de pessoas em Portugal.

Atualizado em 07/07/2020.

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